Description

António Sena. Pintura / Desenho, 1964-2003 | Painting / Drawing, 1964-2003
AAVV (Various authors)

 

Asa Editores, Fundação de Serralves, Porto, 2003
Capa dura encadernado com ilustração editorial | Pictorial illustration bound hardcover. 308 páginas | pages. 29,6 x 25 x 3 cms.
Profusamente Ilustrado | Profusely Illustrated
ISBN 972-739-117-6
Livro em bom estado | Book in good condition.
Texto Bilingue | Bilingual Text
Idioma | Language: Inglês e Português | Portuguese and English

PT
Este belo livro, com a chancela de qualidade académica e editorial da Asa / Fundação de Serralves, é uma espécie de catalogue-raisonée de António Sena, impresso em papel de primeira qualidade, com mais de 200 ilustrações e fotografias de óptima defenição, serve de corolário a um dos nomes incontornáveis da pintura portuguesa do século XX.

ENG
This beautiful book, with the seal of academic and editorial quality from Asa / Fundação de Serralves, is a kind of catalog-raisonée of António Sena’s artistic work, printed on top quality paper, with more than 200 illustrations and photographs of excellent definition, serves as corollary to one of the essential names of 20th century Portuguese painting.

 

 

Resumo | Summary
Nasceu em 1941 em Lisboa. De 1965 a 1975 viveu em Londres, onde frequentou a St. Martin’s School of Art. De 1978 a 1992 foi professor de pintura no Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual, em Lisboa. Expõe, individual e colectivamente, desde 1964.

Durante a estada londrina dos anos 60, o seu trabalho reflecte brevemente influências da Pop Art, tanto na paleta aberta, como nos conteúdos e técnicas, como ainda na referência ao real, dotando a obra de aparente objectividade. Porém, tais presenças (ou vazios), bem como o uso do spray, já no final da década, são pretextos para a fundação de uma grafia íntima, de claro automatismo gestual, instauradora da pintura como algo que toma a realidade matérica do mundo apenas como sugestão.

Nos anos 70, a investigação da luz e da cor opera-se a par de um processo em que o desenho se estrutura como linguagem projectual. Os signos que chegam da década anterior, como letras, números e o seu próprio nome, misturam-se com gráficos, códigos de barras, alvos. A cor abre-se em rasgões de luz. Mas, apesar da festa cromática, das incursões sígnicas no registo quase científico, o mistério da obra adensa-se. Como se a linguagem se encerrasse em si mesma. Surge a incorporação do cálculo, sobre telas tantas vezes negras, mimando ardósias escolares, onde a escrita e o desvendamento do saber e do mundo se inscrevem e apagam. Irrompe também a “etiqueta” (retomada nos anos mais recentes), ligando a pintura a formas de livros ou cadernos de notas. O recurso a línguas estrangeiras sublinha a vontade de urdidura do mistério, da não-revelação.

Nos anos 80, desenho e caligrafia refundem-se, repensando o momento inicial de atribuição de sentido ao mundo. Adensam a sobreposição dos saberes e das linguagens, bem como o tema da morte. A paleta faz já adivinhar a densidade e opacidade dos anos 90, nas cores térreas, lamacentas e argilosas, metáfora ideal para guardar os gestos mais espessos do labor pictórico, como que riscados a dedo em superfícies de barro. No espaço que outrora era habitado por uma caligrafia indescodificável surgem então textos. Porém, mesmo quando assim apetrechado, mesmo que por meio de linguagem numérica, símbolos científicos, matemáticos, setas e demais instrumentos de um alfabeto geométrico de apetência simbólica, ou dotado de trama de palavras cruzadas (onde a sobreposição de signos pode criar condições de legibilidade, mas jamais apresenta sentido), o labirinto mantém-se, como se o autor se furtasse deliberadamente a dar respostas, convidando à dúvida, à inquietação, à reflexão, deixando-nos sempre a um passo da revelação, perdida no irremediável poço do tempo – tema versado inúmeras vezes através da presença da clepsidra ou ampulheta, ou das camadas sedimentares, parcelares e ruinosas, que a pintura e o desenho afirmam nos planos da composição.

A impossibilidade de reconstrução dos saberes, das vidas e dos sentidos já passados conduz fatalmente a nossa própria voz ao silêncio e alimenta uma progressiva perda da inocência, bem como a emergência de um claro sentido de angústia. A etiqueta ressurge agora em evocações de lápides, inscrições tumulares expressas no uso do epitáfio de Paul Klee, citado no alemão original, língua que não só é pouco conhecida em Portugal, como o próprio autor não domina. Permanecendo, assumidamente, num espaço de referências plásticas, implicando-se através da linha, da cor, da mancha, da textura, o traço expressivo desta obra, feita com raros e parcos instrumentos, concretiza poéticas de intensa e intrínseca harmonia.

Balbuciante, sincero e tacteante esforço de compreensão da linguagem e do sentido universais, os desenhos e pinturas de António Sena são companheiros de destino do aniquilamento do mundo. Testemunhas do esforço do primeiro dia, instauradores da linguagem primordial, eles revelam-se também, na outra ponta do tempo, como descobridores, reveladores, de vestígios civilizacionais.

Obedecendo a essa consciência do fim, nos últimos anos confirmou-se a paleta barrosa, servidora e devedora de uma gramática inicial e iniciática, metáfora para o pó de onde vimos e ao qual regressamos. Tumular, sedimentada no passar do tempo, cujos extractos vemos acumulados sem podermos ter clara e distinta certeza do que lemos, no nosso trabalho arqueológico, de reconstrução, de descodificação, a pintura engole a luz, fecha-a no livro da morte, entrega-se à voragem, ao destino comum do desaparecimento e da consequente impossibilidade de comunicação.

Mais do que mitográfica, esta inquietante, serial e coerente rescrita do mundo mostra o caos do momento da criação e – sabedora de que os vestígios não nos podem dar o quadro total e de que o tempo é inapreensível – hesita, também ela, na reconstrução do sentido original, assumindo, em melancolia consciente, a sua condição mortal.
(in Fundação Calouste Gulbennkian)

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